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Capítulo 20

Nas últimas semanas de aulas, toda a escola era uma azáfama. Os alunos corriam de um lado para o outro, à procura de apontamentos que não tinham tirado quando tiveram oportunidade. Eu sentia-me orgulhosa por ter tido sempre os cadernos bem organizados, por isso não foi preciso correr pela escola à procura de apontamentos. No entanto, achei que umas revisões não fariam mal. No fim das aulas, iria para uma das salas de aula estudar com Nath.
Como era suposto eu concentrar-me com Nath tão perto e a falar-me tão docemente ao ouvido? A certa altura deixei completamente de ouvir o que ele dizia para poder olhar para ele e acenar, como se tivesse compreendido. Infelizmente ele apercebeu-se.
-Estás a ouvir-me, sequer?
-Não... - respondi, honestamente. - Nath, nós somos alunos de nota máxima, para além disso estudámos o ano inteiro. Achas mesmo que precisamos de fazer estas revisões?
-Nunca se sabe... - respondeu, com um sorriso trocista.
-Pronto, está bem. - rendi-me com um sorriso.
No dia seguinte não fui às aulas porque estava doente.  Pedi a Missy para dizer a Nath a razão de não ter ido, não fosse ele ficar preocupado. Andei o dia todo a circular entre a cama e o sofá, enrolada na minha mantinha. Na hora de almoço, estava a decidir o que iria comer quando alguém tocou à campainha. Fui abrir e fiquei espantada quando vi que era Nath.
-Como está a minha doentinha? - perguntou, enquanto me dava um beijo na testa afetuosamente.
-Melhor, agora que aqui estás. - respondi, abraçando-o.
Ele levantou o braço e pude ver que tinha trazido comida de algum take away. Excelente, pensei, assim não precisava de cozinhar nada.
Pousando o saco em cima da mesa, sentou-se numa cadeira a meu lado. Nath tinha trazido a minha sopa favorita para quando estou doente, canja. Enquanto comíamos, ele contou-me tudo o que se tinha passado na escola. Segundo ele, Debrah tinha aparecido na escola, o que não era bom sinal. Eu sabia muito pouco sobre Debrah, apenas sabia que ela era a razão da constante inimizade do Castiel e do Nath.
-Mas afinal o que é que ela fez? - perguntei, quando já estávamos de volta ao quarto.
-Bem, talvez eu deva contar-te a história de uma vez por todas. Bem, como sabes, a Debrah sonhava em ser famosa e tudo isso. Ela recebeu uma proposta do seu agente para um contrato, juntamente com o Castiel. Como ela queria os holofotes só para si, disse ao agente que o Castiel já não queria participar. Ela estava a mentir, obviamente. Eu ouvi a conversa dela como agente e disse-lhe que o que ela tinha feito era errado. Ela disse-me que eu não tinha nada a ver com isso e eu vim-me embora. Quando ela falou com o Castiel, mentiu-lhe, lamentando que os produtores só a queriam a ela. Ele ficou muito triste por saber que a Debrah teria que ir embora, mas ainda a amava. Nesse mesmo dia, acabou com ele. Para se assegurar de que eu não ia contar nada ao Castiel, ela seduziu-me na sala dos representantes, e o Castiel entrou na altura em que ela estava mesmo agarrada a mim. Parecia óbvio que era eu que me estava a atirar a ela, quando era precisamente o oposto. Ele ficou furioso e deu-me um murro, mas rapidamente alguém parou a luta. Desde aí que evitamos falar um com o outro, pois ele não acredita em mim.
Mantive a boca aberta com espanto durante toda a história. Talvez estivesse na altura de começar a não gostar de Debrah. Além disso, ela não era grande coisa como cantora. Tinha uma voz bonita, mas demasiado comum. Uma coisa era certa: se ela voltasse no dia seguinte, iriam haver problemas.

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Capítulo 19

Todos os anos, a escola fazia uma semana musical dedicada a uma estrela da música. Para decidir qual seria o escolhido este ano, a escola fez votações e acabámos com um resultado controverso: Britney Spears. O clube de música, no qual Íris e Alexy eram definitivamente as estrelas, decidiu que iam dar uma chance aos alunos mais novos. Iam escolher, de entre  as raparigas, qual se adequava mais ao papel, e qual delas estaria disponível para brilhar em frente de toda a escola. Iríamos ter a ajuda de alguns membros do clube de dança, que se disponibilizaram para coreografar os membros que iam apenas ser o coro.
Iríamos ter um mês para treinar e ensaiar tudo, mas antes disso era preciso escolher: quem ia merecer a oportunidade de ser adorada por imensos alunos?
No dia das audições, apareceram cinco membros do clube, incluindo eu, dispostas a darem tudo para vencer. Entre elas também estava Ambre. Quase me desmanchei a rir, quando a vi sentada no auditório à espera da sua chance. Sim, de todas as candidatas, ela era a mais fisicamente parecida, mas...Tínhamos que esperar para ver.
A primeira foi Marley, uma das raparigas do clube que tinham uma voz espantosa e apenas a usavam em apoios vocais. No entanto, a sua voz era demasiado teatral, e foi eliminada da corrida.
Imediatamente a seguir, veio Mercedes, uma rapariga de pele escura, que surpreendia todos com o seu timbre forte, e que por vezes competia com Íris para ver quem conseguia mais canções. Obviamente, ficou como finalista.
A terceira foi Ambre, que apesar de ser membro, nunca apareceu em nenhuma das aulas do clube. Não sei quem é que lhe disse que ela conseguiria deslumbrar, mas o que é certo é que foi humilhada em público, e eliminada.
A quarta rapariga chamava-se Santana, mas foi eliminada antes de ter a chance de fazer uma audição pois foi provocada por Ambre e Santana é facilmente irritável. Por um lado estava feliz, pois ela provavelmente seria a vencedora, se não tivesse começado a puxar os cabelos a Ambre.
E finalmente, havia chegado a minha vez. A regra número um é que teríamos que cantar uma música da Britney Spears na audição, e tinha sido difícil escolher. Acabei por decidir que ia cantar "Everytime", uma das minhas canções preferidas.

"Notice me
Take my hand
Why are we
Strangers when
Our love was strong
Why carry on without me



Everytime I try to fly I fall
Without my wings
I feel so small
I guess I need you baby 
And everytime I see
You in my dreams
I see your face
It's haunting me
I guess I need you baby"

Na minha opinião a audição correu bem, pois o júri tomou imensas notas e parecia indeciso. A decisão que tinham de tomar agora era difícil: seria eu, ou Mercedes. 
No dia seguinte, no clube anunciaram os resultados. Eu tinha ganho! Estava tão entusiasmada! Apertei a mão a Mercedes, em sinal de respeito, e ela deu-me os parabéns. Parecia que agora estava na hora de começar a trabalhar a sério.
Fizemos uma votação, e a música com que iríamos abrir a semana era "Gimme More", uma escolha um pouco arriscada, mas que agradava a todos nós. Até eu descobrir que roupa iríamos usar...


Achei que o fato era demasiado revelador, mas já que todo o clube ia vestido de uma maneira igualmente provocadora embora diferente, não me importei muito. Pior seria se fossem todos tapadinhos e eu aparecesse assim.
Passámos um mês inteiro a ensaiar e a coreografar tudo, para que o resultado fosse estonteante. E no dia da abertura da semana Britney Spears, o ginásio estava cheio, com imensa gente nas bancadas, entre elas Missy, Yumi, Castiel, Lysandre e Nath.
Tínhamos alterado o início da música, para que se adequasse a mim, e embora fosse inadequado, tornava a atuação mais livre.

"It's Nikki, bitch!
I see you
And I just want to dance with you

Everytime they turn the lights down
Just want to go that extra mile for you
You got my display of affectionFeels like no one else in the room but you

We can get down like there’s no one aroundWe keep on rockin’, we keep on rockin'Cameras are flashin’ while we're dirty dancin’They keep watchin’, keep watchin'Feels like the crowd is sayin’

Gimme gimme more, gimme more, gimme gimme moreGimme gimme more, gimme more, gimme gimme moreGimme gimme more, gimme more, gimme gimme moreGimme gimme more, gimme more, gimme gimme more"


A reação foi a que já esperávamos. Alguns membros do público masculino pareciam aplaudir não só a música, mas tudo o resto, com assobios a toda a hora. Não era suposto ter focado o meu olhar em ninguém do público, mas na verdade, no fim de cada verso, não conseguia evitar olhar para Nath, para ver a sua reação. Ele olhava para mim especado, tentando sorrir por cima da sua expressão boquiaberta. Esperei que toda a gente se tivesse ido embora para ir ter com Nath. Eu dei-lhe um abraço apertado.-O que achaste? - perguntei, curiosa.-Queres ouvir a opinião decente e desonesta, ou a opinião indecente e sincera?-Hum, não sei... - respondi, tentando aparentar um ar pensativo. - Acho que vou querer a opinião indecente e sincera...-Estiveste ótima, e foste tão perfeita que não sei como é que consegui ficar aqui quietinho, sem ir lá atacar-te.
*
O resto do dia passou depressa, assim como toda a semana. Para ser justo, outros membros participavam em algumas partes das músicas e achei que todas as atuações correram bem. Peggy fez da semana Britney o tema do jornal, e não se cansou de repetir que tinha sido a melhor semana musical que a escola já fizera, o que me orgulhava imenso.E só aí me apercebi...O ano escolar terminaria dentro de algumas semanas, mas ainda faltavam as provas finais...Estava na hora de começar a fazer revisões...




(Versões utilizadas)Audição: Everytime - http://www.youtube.com/watch?v=s_RqlfiNOeIDia 1: Gimme More - http://www.youtube.com/watch?v=r3KVS2jO6p0&feature=relatedDia 2: Toxic - http://www.youtube.com/watch?v=rih_HDea7RIDia 3: Oops...I did it again - http://www.youtube.com/watch?v=h5x5aVzOkSYDia 4: 3 - http://www.youtube.com/watch?v=5vcTj_29VHsDia 5: Womanizer - http://www.youtube.com/watch?v=Op2cleC0i4Q          I Wanna Go - http://www.youtube.com/watch?v=vWqkdkF0q9s









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Capítulo 18

No dia seguinte, com as faltas devidamente justificadas, voltámos à escola, mas agora toda a gente queria saber: porque razão faltariam os representantes de turma a uma aula, e mais importante, porque é que um deles tinha lágrimas nos olhos quando abandonaram a escola.
Felizmente contornámos as perguntas de todos e o fim-de-semana chegou rapidamente. Era o aniversário de  Violette, e como não queria festejá-lo sozinha, pois os pais dela estaríam fora, decidiu organizar uma pequena festa, para a qual convidou apenas Missy, Yumi e eu. Ficou decidido que iríamos passar lá a noite, e que deveríamos estar em casa dela pelas 16 horas. Mas antes disso, ainda tínhamos de comprar os presentes.
Juntamente com Missy e Yumi, fui ao centro comercial. Violette era tão calada que pouco sabíamos sobre ela. Mas sabíamos o suficiente para saber o que lhe comprar: Missy comprou-lhe um livro sobre plantas, já que Violette estava no clube de jardinagem. Yumi, que sempre fora a extravagância em pessoa na compra de presentes, comprou um enorme peluche em forma de coelhinho. E eu, que estava praticamente sem ideias, decidi presenteá-la com um  kit profissional de desenho, já que sabia que ela tinha muito jeito para o desenho.
Então, depois de almoço, dirigimo-nos para a casa de Violette um pouco mais cedo. Ela abriu-nos a porta com o mesmo sorriso tímido de sempre.
Assim que entrámos, guiou-nos a um quarto que os pais tinham construído na esperança de que Violette se tornasse uma rapariga social. Claro que Violette tinha um quarto mais pequeno, mas era notável da parte dos pais que se dessem ao trabalho de construir um quarto tão bonito.



Encostámos as nossas coisas a um canto e Violette fez-nos uma visita guiada ao resto da casa. A seguir, atribuímos a cama em que cada uma ia ficar. A superior do lado esquerdo seria de Missy, e a do lado direito de Yumi. Em baixo, eu ficaria do lado esquerdo, e Violette do lado direito.
Depois dirigimo-nos à sala, onde cantámos os parabéns a Violette. Passámos o resto da tarde na sala a petiscar a comida que se encontrava em cima da mesa, e quando chegou a hora de jantar, encomendámos comida.
Mas só depois do jantar é que a verdadeira diversão começou: depois de lavarmos os dentes e vestirmos os pijamas, sentámo-nos todas numa canto do quarto que estava cheio de almofadas fofas. Tinha chegado a hora da "fofoca". Yumi era a grande impulsionadora da conversa.
-Violette, nunca nos disseste se gostavas de alguém... - afirmou Yumi, curiosamente.
-Bem, eu... - Violette corava facilmente, mas agora parecia que ia explodir de embaraço. - Eu gostava do Alexy, mas ele é...
-Nós sabemos. - interrompi eu, tentando não trazer muito Alexy à conversa.
-E não há ninguém agora? - perguntou Missy.
-...O Jade é muito simpático... - constatou ela, envergonhada.
-Fazem um casal muito bonito! - exclamou Yumi. - Ok, mudando de assunto. É a tua vez, Nikki. Como vai o Nath? - questionou, piscando o olho.
Tentei não corar. A verdade é que não tinha contado a verdade sobre as férias da Páscoa a ninguém, apesar de já ter dado uma vaga ideia a Missy, mudando de assunto logo a seguir. Eu sabia que ela tinha captado o que se passou, mas eu tinha que contar a Yumi. Não podia continuar a esconder isto por muito mais tempo.
-Eu não fui totalmente honesta contigo sobre as férias da Páscoa, Yumi... - disse, inspirando. - A verdade é que aconteceu outra coisa no meu aniversário...
Yumi estacou a olhar para mim. Eu não sabia se ela estava zangada por não lhe ter contado mais cedo, mas a reação que teve foi a que eu já esperava.
-Eu não acredito!!! - exclamou ela, com um sorriso estampado na cara, lançando-se na minha direção para um abraço apertado.
A seguir o tema de conversa foi Lysandre, ao qual Missy teceu vários elogios, relatando o quão simpático e amoroso era.
E depois, a conversa deslizou para Yumi e Castiel, que não se conteve nos elogios a Castiel. Começava a ficar tarde e decidimos ir para a cama. Eu adormeci facilmente, pois já estava com sono.

No dia seguinte, depois do almoço, ficámos à espera dos pais de Violette para que ela não ficasse sozinha e quando eles chegaram voltámos para casa. Divertimo-nos imenso, e até Violette parecia mais animada do que o costume.

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Capítulo 17

No primeiro dia de aulas do terceiro período, todos os alunos estavam animados por reverem os seus amigos. Confesso que já tinha saudades da doçura exagerada de Violette, da dedicação de Jade, da simpatia de Íris, da extravagância de Alexy, da curiosidade de Peggy, da presunção de Bia, da rivalidade de Melody e da confiança de Kim. Até tinha saudades das parvoíces de Ambre e do seu grupo. A minha primeira aula seria de Francês, seguida de Ciências, Inglês e Educação Física. E depois iria para casa.
As primeiras três aulas passaram rápido. Quando saí da aula de Inglês, reparei que Nath se dirigia a um passo acelerado para o vestiário. Por norma, ele nunca ia tão cedo para a aula, pois ele costumava esperar por mim para irmos juntos.
Decidi segui-lo até ele entrar no vestiário. Por que razão iria ele vestir-se mais cedo que os outros? Será que havia alguma coisa que os outros não podiam ver? O meu instinto dizia-me para ir ver, mas o meu cérebro dizia-me que não deveria ir. O meu instinto foi mais forte. Segui Nath e vi-o quando se preparava para vestir a camisola.


Então era isso...Nath exibia grandes hematomas nas costas, e só pude deduzir o pior...Já o tinha visto algumas vezes em torso nu, mas nunca tinha reparado nestas marcas na pele. Não consegui conter o meu espanto e a minha respiração tornou-se inconstante e muito audível. Nathaniel virou-se, nervoso, e deparou-se com a minha figura, ainda boquiaberta.
-Nikki?
-Nath, eu lamento imenso... - tentei pedir desculpa, e forcei as palavras a saírem, pois naquele momento não sabia o que dizer.
-Não devias ter vindo aqui!. - disse ele, exaltado. 
Ele não deixava transparecer o sofrimento, mas eu via-o nos olhos dele. A sua simpatia exagerada era na sua grande parte para esconder a sua história...
-Eu... - comecei a falar, mas fui interrompida por Nath.
-Desculpa, fui muito brusco... - uma lágrima percorreu-lhe a face. - Não te devia ter tratado assim.
Eu limpei a lágrima que corria a sua cara com a mão e abracei-o ternamente. Ele não se conteve e chorou no meu ombro. A tristeza dele era contagiante, e uma lágrima desceu as minhas próprias faces enquanto tentava consolar Nath, afagando-lhe as costas com as mãos. Eu dei-lhe a camisola e ele vestiu-a em alguns segundos. Antes que alguém nos pudesse ver, saímos do ginásio e fomos diretamente para o meu apartamento. Enquanto caminhávamos, avisei Missy e Yumi por mensagem de que iria faltar à última aula e que depois lhes explicaria tudo. Assim que chegámos, deitei-me na cama e Nath ficou abraçado a mim. Era impossível para mim ver as pessoas de quem gosto a sofrer sem sofrer com elas. Não sabia bem o que fazer, mas tirei a camisola dele e pedi-lhe que se deitasse de barriga para baixo. Analisei bem as marcas, e como uma mãe beijaria o dói-dói de um filho, pousei suavemente os lábios em cada centímetro da sua dor, tentando fazer com que ela se fosse embora, mesmo que isso não acontecesse.
-Não precisas de me contar o que se passou. - disse, reconfortando-o. - Quando estiveres pronto, podes contar-me o que se passa.
Ele sentou-se à minha frente e olhou-me olhos nos olhos. 
-Eu quero contar-te. - disse ele, limpando as lágrimas. - Já foi há uns anos...Eu fui muito mau, um demónio para a Ambre e perdi a confiança dos meus pais, ou mais do meu pai especificamente. Desde que ganhei estas marcas que tento ganhar novamente a confiança dele. Eu esforço-me na escola e tento ser sempre bem educado, mas parece não resultar. Num ato de fúria, o meu pai empurrou-me pelas escadas e eu dei uma queda um pouco grave. As marcas são tudo o que restou desse acontecimento, e continuam a assombrar-me mesmo anos depois.
A história era aterrorizadora, mas ainda havia uma coisa que não compreendia.
-Como é que eu não vi as marcas antes? - perguntei.
-Por norma eu uso um produto para disfarçar, mas esqueci-me de o aplicar hoje e foi por isso que tinha pressa de me ir vestir mais cedo.
Nath, naquele momento, era para mim  um anjo. Não havia ninguém no mundo que eu queria mais naquele momento do que Nath. Cerrei os estores e tranquei a porta. Assim ninguém nos incomodaria. Voltei para a cama e, no escuro, beijei Nath numa tentativa desesperada de curar o seu sofrimento, a sua dor. Ele retribuiu o beijo e eu comecei a deitar-me sobre o ele. Não sabia que efeito o beijo estava a ter em Nathaniel, mas certamente era positivo. E ali, naquele momento onde ambos estávamos a sentir-nos tão apaixonados, aconteceu novamente. E desta vez, estávamos ainda mais intensamente apaixonados. Parecia que éramos feitos um para o outro, como peças de um puzzle. Pertencíamos juntos. Unidos. E ninguém nos poderia separar.











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Capítulo 16

Quando subi para o apartamento, pensei que ia ser bombardeada com perguntas, mas não foi isso que aconteceu. Missy e Yumi mostraram-se muito prestáveis e até me ajudaram a arrumar as malas. Quando acabámos era quase hora do jantar e decidimos adiantá-lo, pois já estávamos um pouco esfomeadas. No fim do jantar, fui para o meu quarto e sentei-me no mini-sofá que tinha no quarto a ler um livro. Pensava que ia permanecer sossegada, até que ouvi alguém a bater à porta do quarto. Yumi entrou primeiro, e Missy vinha atrás dela. Ambas se sentaram na minha cama e olhavam para mim fixamente.
-O que foi? - perguntei, nervosa.
-Achas que te íamos deixar em paz antes de saber o que se passou? - inquiriu Yumi, piscando o olho.
Coloquei o livro à frente da cara para evitar que me vissem a corar violentamente. Era fácil distinguir que Missy apenas queria decifrar o meu sorriso, enquanto que Yumi queria saber tudo graças à sua personalidade exageradamente curiosa. Não fazia ideia do que devia ou não contar...Yumi já tinha insinuado algumas vezes o que realmente aconteceu meses antes de acontecer. Não sabia se deveria começar por aí. Sabia qual iria ser a sua reação. Decidi que ia contar tudo menos o que realmente lhe interessava.
-Bem, já que estás tão curiosa...Viajámos para Veneza, ficámos lá alguns dias, os meus pais organizaram uma grande festa de aniversário, e alguns dias depois voltámos para casa.
Missy sorriu devido à imensamente vaga descrição que tinha dado. Yumi cruzou os braços e olhou curiosamente para a minha mão direita.
-Que lindo anel... - observou, intrigada.
Olhei para a minha mão e e facto o anel, que por norma me parecia simples e discreto, parecia agora brilhar e chamava a atenção como se houvesse um grande cartaz a dizer: "Olhem para mim!".
-Foi uma prenda de aniversário... - respondi, corando.
-De quem? - questionou Yumi, imediatamente após a minha resposta.
-Do Nath...
-Oh, o amor não é lindo? - disse ela, sorrindo na brincadeira.
Eu sorri, mas atirei-lhe uma almofada à cara, para que não continuasse com aquelas bocas que poderiam evoluir para algo mais sério.
Yumi pareceu convencida com a história que lhe contei, mesmo que lhe faltasse um detalhe importante. Decidi mentalmente que não ia contar tão cedo a ninguém, mas assim que Yumi e Missy saíram do quarto, pensei que não estava a ser sincera e honesta com elas. Senti-me um pouco culpada por não lhes ter contado, e não pensei noutra coisa a noite toda, até que adormeci. E aí, tive um sonho, um sonho muito estranho.

***

Estava na escola a acabar de estudar quando vi que já era de noite. Decidi voltar para casa, mas um gato atravessou-se no meu caminho. Tentei fazer-lhe uma festa mas ele começou a caminhar em direção ao clube de jardinagem. Eu fui atrás dele, mas pareceu-me que se abriu um vórtice no chão e fui sugada para uma dimensão desconhecida. Parecia um pouco assombrado, e estava muito frio. Caminhei sem saber para onde ia e encontrei um lago. A temperatura daquele sítio devia estar bem abaixo de zero, e não consegui evitar que um enorme espirro saísse. De repente, vi uma bruxa. Sim, era uma bruxa. Ela parecia zangada e começou a gritar.
-Sua tonta! Fizeste-me perder os peixes!!!
O que ela dizia parecia não fazer sentido, mas mesmo assim pedi desculpa. Ela barafustava comigo, tentando saber porque estava eu ali, mesmo sem eu saber onde estava. Ela levou-me até a sua casa que, tal como ela, era um pouco assustadora. Ali, no meio da sala, estava um caldeirão com um líquido verde lá dentro.
-Ouça, eu não sei onde estou mas também não quero ficar aqui...Posso ir-me embora? - perguntei, assustada.
-Não antes de me recompensares por me teres feito perder os peixes. Veste isto e vai-me buscar um morcego.
Ela atirou-me uma roupa que me dava um ar de aprendiz de bruxa e eu vesti-a. Depois deu-me uma rede de borboletas e mandou-me ir apanhar um morcego. Acedi, com alguma hesitação, mas a rede partiu-se quando tentei apanhar um dos morcegos. Tinha que arranjar uma solução. Não me lembrava de nada, e comecei a dar chutos em pedras para ver se me vinha algo à cabeça. Nada. Até que uma das pedras que chutei acertou num morcego, que caiu atordoado no chão. Apanhei-o e levei-o até à bruxa. Ela atirou-o para dentro do caldeirão. De seguida, mandou-me ir procurar um pote com aranhas que perdera algures. Encontrei-o perto do lago e devolvi-o. Ela arrancou as patas às aranhas e jogou-as para o caldeirão.
-Estou quase lá! Finalmente, esta poção, dir-me-á se serei ou não a melhor bruxa de sempre! - disse ela, com um sorriso quase malvado.
De repente, praguejou e pareceu ficar muito irritada.
-Raios! Não consigo ler o que está aqui!
Eu aproximei-me e vi que as letras estavam um pouco borratadas, mas consegui ver uma palavra: grãos. Mais valia não ter dito nada, porque depois mandou-me ir procurar uns grãos minúsculos...De qualquer maneira, encontrei-os e dei-os à bruxa, que os colocou delicadamente dentro do caldeirão. A poção mudou de cor e ela olhou curiosamente para dentro do caldeirão.
-Consegues ver alguma coisa? Serei eu a melhor bruxa de sempre? - perguntou, ansiosa.
Digamos que o que vi não tinha nada a ver com o futuro da bruxa, mas sim com alguém que eu conhecia muito bem:



A bruxa ficou tão desiludida que praticamente me obrigou a beber algo para me fazer voltar à realidade. E foi aí que acordei.

***

Levantei-me bruscamente, e não pude evitar sorrir. Estava com um bom humor extraordinariamente invulgar para a minha personalidade, que nunca estava tão animada de manhã. Talvez fosse devido ao sonho, talvez.
Tomei um duche e vesti-me. Ainda era cedo, mas decidi tomar na altura o pequeno almoço. Missy e Yumi provavelmente ainda estariam a dormir e eu não queria acordá-las. As aulas começavam na próxima semana e confesso que já tinha saudades. 






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