Quando subi para o apartamento, pensei que ia ser bombardeada com perguntas, mas não foi isso que aconteceu. Missy e Yumi mostraram-se muito prestáveis e até me ajudaram a arrumar as malas. Quando acabámos era quase hora do jantar e decidimos adiantá-lo, pois já estávamos um pouco esfomeadas. No fim do jantar, fui para o meu quarto e sentei-me no mini-sofá que tinha no quarto a ler um livro. Pensava que ia permanecer sossegada, até que ouvi alguém a bater à porta do quarto. Yumi entrou primeiro, e Missy vinha atrás dela. Ambas se sentaram na minha cama e olhavam para mim fixamente.
-O que foi? - perguntei, nervosa.
-Achas que te íamos deixar em paz antes de saber o que se passou? - inquiriu Yumi, piscando o olho.
Coloquei o livro à frente da cara para evitar que me vissem a corar violentamente. Era fácil distinguir que Missy apenas queria decifrar o meu sorriso, enquanto que Yumi queria saber tudo graças à sua personalidade exageradamente curiosa. Não fazia ideia do que devia ou não contar...Yumi já tinha insinuado algumas vezes o que realmente aconteceu meses antes de acontecer. Não sabia se deveria começar por aí. Sabia qual iria ser a sua reação. Decidi que ia contar tudo menos o que realmente lhe interessava.
-Bem, já que estás tão curiosa...Viajámos para Veneza, ficámos lá alguns dias, os meus pais organizaram uma grande festa de aniversário, e alguns dias depois voltámos para casa.
Missy sorriu devido à imensamente vaga descrição que tinha dado. Yumi cruzou os braços e olhou curiosamente para a minha mão direita.
-Que lindo anel... - observou, intrigada.
Olhei para a minha mão e e facto o anel, que por norma me parecia simples e discreto, parecia agora brilhar e chamava a atenção como se houvesse um grande cartaz a dizer: "Olhem para mim!".
-Foi uma prenda de aniversário... - respondi, corando.
-De quem? - questionou Yumi, imediatamente após a minha resposta.
-Do Nath...
-Oh, o amor não é lindo? - disse ela, sorrindo na brincadeira.
Eu sorri, mas atirei-lhe uma almofada à cara, para que não continuasse com aquelas bocas que poderiam evoluir para algo mais sério.
Yumi pareceu convencida com a história que lhe contei, mesmo que lhe faltasse um detalhe importante. Decidi mentalmente que não ia contar tão cedo a ninguém, mas assim que Yumi e Missy saíram do quarto, pensei que não estava a ser sincera e honesta com elas. Senti-me um pouco culpada por não lhes ter contado, e não pensei noutra coisa a noite toda, até que adormeci. E aí, tive um sonho, um sonho muito estranho.
***
Estava na escola a acabar de estudar quando vi que já era de noite. Decidi voltar para casa, mas um gato atravessou-se no meu caminho. Tentei fazer-lhe uma festa mas ele começou a caminhar em direção ao clube de jardinagem. Eu fui atrás dele, mas pareceu-me que se abriu um vórtice no chão e fui sugada para uma dimensão desconhecida. Parecia um pouco assombrado, e estava muito frio. Caminhei sem saber para onde ia e encontrei um lago. A temperatura daquele sítio devia estar bem abaixo de zero, e não consegui evitar que um enorme espirro saísse. De repente, vi uma bruxa. Sim, era uma bruxa. Ela parecia zangada e começou a gritar.
-Sua tonta! Fizeste-me perder os peixes!!!
O que ela dizia parecia não fazer sentido, mas mesmo assim pedi desculpa. Ela barafustava comigo, tentando saber porque estava eu ali, mesmo sem eu saber onde estava. Ela levou-me até a sua casa que, tal como ela, era um pouco assustadora. Ali, no meio da sala, estava um caldeirão com um líquido verde lá dentro.
-Ouça, eu não sei onde estou mas também não quero ficar aqui...Posso ir-me embora? - perguntei, assustada.
-Não antes de me recompensares por me teres feito perder os peixes. Veste isto e vai-me buscar um morcego.
Ela atirou-me uma roupa que me dava um ar de aprendiz de bruxa e eu vesti-a. Depois deu-me uma rede de borboletas e mandou-me ir apanhar um morcego. Acedi, com alguma hesitação, mas a rede partiu-se quando tentei apanhar um dos morcegos. Tinha que arranjar uma solução. Não me lembrava de nada, e comecei a dar chutos em pedras para ver se me vinha algo à cabeça. Nada. Até que uma das pedras que chutei acertou num morcego, que caiu atordoado no chão. Apanhei-o e levei-o até à bruxa. Ela atirou-o para dentro do caldeirão. De seguida, mandou-me ir procurar um pote com aranhas que perdera algures. Encontrei-o perto do lago e devolvi-o. Ela arrancou as patas às aranhas e jogou-as para o caldeirão.
-Estou quase lá! Finalmente, esta poção, dir-me-á se serei ou não a melhor bruxa de sempre! - disse ela, com um sorriso quase malvado.
De repente, praguejou e pareceu ficar muito irritada.
-Raios! Não consigo ler o que está aqui!
Eu aproximei-me e vi que as letras estavam um pouco borratadas, mas consegui ver uma palavra: grãos. Mais valia não ter dito nada, porque depois mandou-me ir procurar uns grãos minúsculos...De qualquer maneira, encontrei-os e dei-os à bruxa, que os colocou delicadamente dentro do caldeirão. A poção mudou de cor e ela olhou curiosamente para dentro do caldeirão.
-Consegues ver alguma coisa? Serei eu a melhor bruxa de sempre? - perguntou, ansiosa.
Digamos que o que vi não tinha nada a ver com o futuro da bruxa, mas sim com alguém que eu conhecia muito bem:
A bruxa ficou tão desiludida que praticamente me obrigou a beber algo para me fazer voltar à realidade. E foi aí que acordei.
***
Levantei-me bruscamente, e não pude evitar sorrir. Estava com um bom humor extraordinariamente invulgar para a minha personalidade, que nunca estava tão animada de manhã. Talvez fosse devido ao sonho, talvez.
Tomei um duche e vesti-me. Ainda era cedo, mas decidi tomar na altura o pequeno almoço. Missy e Yumi provavelmente ainda estariam a dormir e eu não queria acordá-las. As aulas começavam na próxima semana e confesso que já tinha saudades.






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