No primeiro dia de aulas do terceiro período, todos os alunos estavam animados por reverem os seus amigos. Confesso que já tinha saudades da doçura exagerada de Violette, da dedicação de Jade, da simpatia de Íris, da extravagância de Alexy, da curiosidade de Peggy, da presunção de Bia, da rivalidade de Melody e da confiança de Kim. Até tinha saudades das parvoíces de Ambre e do seu grupo. A minha primeira aula seria de Francês, seguida de Ciências, Inglês e Educação Física. E depois iria para casa.
As primeiras três aulas passaram rápido. Quando saí da aula de Inglês, reparei que Nath se dirigia a um passo acelerado para o vestiário. Por norma, ele nunca ia tão cedo para a aula, pois ele costumava esperar por mim para irmos juntos.
Decidi segui-lo até ele entrar no vestiário. Por que razão iria ele vestir-se mais cedo que os outros? Será que havia alguma coisa que os outros não podiam ver? O meu instinto dizia-me para ir ver, mas o meu cérebro dizia-me que não deveria ir. O meu instinto foi mais forte. Segui Nath e vi-o quando se preparava para vestir a camisola.
Então era isso...Nath exibia grandes hematomas nas costas, e só pude deduzir o pior...Já o tinha visto algumas vezes em torso nu, mas nunca tinha reparado nestas marcas na pele. Não consegui conter o meu espanto e a minha respiração tornou-se inconstante e muito audível. Nathaniel virou-se, nervoso, e deparou-se com a minha figura, ainda boquiaberta.
-Nikki?
-Nath, eu lamento imenso... - tentei pedir desculpa, e forcei as palavras a saírem, pois naquele momento não sabia o que dizer.
-Não devias ter vindo aqui!. - disse ele, exaltado.
Ele não deixava transparecer o sofrimento, mas eu via-o nos olhos dele. A sua simpatia exagerada era na sua grande parte para esconder a sua história...
-Eu... - comecei a falar, mas fui interrompida por Nath.
-Desculpa, fui muito brusco... - uma lágrima percorreu-lhe a face. - Não te devia ter tratado assim.
Eu limpei a lágrima que corria a sua cara com a mão e abracei-o ternamente. Ele não se conteve e chorou no meu ombro. A tristeza dele era contagiante, e uma lágrima desceu as minhas próprias faces enquanto tentava consolar Nath, afagando-lhe as costas com as mãos. Eu dei-lhe a camisola e ele vestiu-a em alguns segundos. Antes que alguém nos pudesse ver, saímos do ginásio e fomos diretamente para o meu apartamento. Enquanto caminhávamos, avisei Missy e Yumi por mensagem de que iria faltar à última aula e que depois lhes explicaria tudo. Assim que chegámos, deitei-me na cama e Nath ficou abraçado a mim. Era impossível para mim ver as pessoas de quem gosto a sofrer sem sofrer com elas. Não sabia bem o que fazer, mas tirei a camisola dele e pedi-lhe que se deitasse de barriga para baixo. Analisei bem as marcas, e como uma mãe beijaria o dói-dói de um filho, pousei suavemente os lábios em cada centímetro da sua dor, tentando fazer com que ela se fosse embora, mesmo que isso não acontecesse.
-Não precisas de me contar o que se passou. - disse, reconfortando-o. - Quando estiveres pronto, podes contar-me o que se passa.
Ele sentou-se à minha frente e olhou-me olhos nos olhos.
-Eu quero contar-te. - disse ele, limpando as lágrimas. - Já foi há uns anos...Eu fui muito mau, um demónio para a Ambre e perdi a confiança dos meus pais, ou mais do meu pai especificamente. Desde que ganhei estas marcas que tento ganhar novamente a confiança dele. Eu esforço-me na escola e tento ser sempre bem educado, mas parece não resultar. Num ato de fúria, o meu pai empurrou-me pelas escadas e eu dei uma queda um pouco grave. As marcas são tudo o que restou desse acontecimento, e continuam a assombrar-me mesmo anos depois.
A história era aterrorizadora, mas ainda havia uma coisa que não compreendia.
-Como é que eu não vi as marcas antes? - perguntei.
-Por norma eu uso um produto para disfarçar, mas esqueci-me de o aplicar hoje e foi por isso que tinha pressa de me ir vestir mais cedo.
Nath, naquele momento, era para mim um anjo. Não havia ninguém no mundo que eu queria mais naquele momento do que Nath. Cerrei os estores e tranquei a porta. Assim ninguém nos incomodaria. Voltei para a cama e, no escuro, beijei Nath numa tentativa desesperada de curar o seu sofrimento, a sua dor. Ele retribuiu o beijo e eu comecei a deitar-me sobre o ele. Não sabia que efeito o beijo estava a ter em Nathaniel, mas certamente era positivo. E ali, naquele momento onde ambos estávamos a sentir-nos tão apaixonados, aconteceu novamente. E desta vez, estávamos ainda mais intensamente apaixonados. Parecia que éramos feitos um para o outro, como peças de um puzzle. Pertencíamos juntos. Unidos. E ninguém nos poderia separar.






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